CRÍTICOS E PESQUISADORES DESTACAM TRÂNSITO ENTRE AS ARTES A PARTIR DA EXPERIÊNCIA DOS CORPOS EM CENA

Relações entre o teatro e o cinema mostram que as duas artes dependem da presença e dos afetos, com a diferença de que uma lida com o aparato tecnológico, e a outra com o convívio direto

A temática desta 22a edição da Mostra de Cinema de Tiradentes esteve no centro dos debates no Seminário, em especial na mesa da tarde, “Corpos Adiante: corpos em trânsitos artísticos por dentro da ‘cena’”. O objetivo era de conversar sobre os trânsitos entre diferentes artes (cinema, teatro, visuais, performance) e as particularidades dos processos. Logo de início, a pesquisadora de artes cênicas Luciana Romagnolli descreveu diferenças fundamentais de linguagens do audiovisual com o teatro, se fixando no conceito de presença e de afetação dos corpos.

“Sobre quais cinemas e quais teatros estamos falando? Como os corpos se relacionam no teatro e no cinema com o que já existe? E com o que não existe?”, questionou Luciana, para enveredar pela descrição de algumas peças contemporâneas que colocam em xeque o estatuto puro da ficção e levam a expressão para a instância da afetação. “O ambiente teatral compartilha os corpos presentes: quem está no palco pode modificar suas reações diante do olhar do público, e o público também se afeta por quem está na cena”.

A pesquisadora apontou preconceito por parte de muitos profissionais do cinema com relação ao teatro e identifica nisso uma definição das artes cênicas ainda herdeira do século XIX e da presunção de que teatro é texto encenado. Também na mesa, o ator Rafael Martins, do grupo cearense Bagaceira e no elenco do longa-metragem “Inferninho”, era um exemplo típico de experiência fora dos padrões convencionais de teatro comercial. “Eu trabalho numa estrutura colaborativa. Uma das principais funções do colaborativo é que tudo aquilo que está sendo dito deve nos dizer respeito, deve ter relação com a visão comum do grupo”, disse ele. “O que vejo de melhor na troca entre teatro e cinema é quando você não diminui o papel do outro”.

Serviço
 22ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES | 18 a 26 de janeiro de 2019

LEI FEDERAL DE INCENTIVO À CULTURA

LEI ESTADUAL DE INCENTIVO À CULTURA

Patrocínio:  TAESA, KINEA/Itaú, CSN, CBMM, CEMIG, COPASA|GOVERNO DE MINAS GERAIS

Parceria Cultural: SESC em Minas

Fomento: CODEMGE|GOVERNO DE MINAS GERAIS

Apoio: ACADEMIA INTERNACIONAL DE CINEMA, SESI FIEMG, OI, INSTITUTO UNIVERSO CULTURAL, TRES, WALS CERVEJA ARTE, MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES, SENAC, CINEMA DO BRASIL, DOT, MISTIKA, CTAV, NAYMAR, CINECOLOR, GLOBO MINAS, CANAL BRASIL, EMBAIXADA DA FRANÇA, ETC FILMES, NOVA ERA SILICON, POLÍCIA MILITAR, PREFEITURA DE TIRADENTE E CENTRO CULTURAL AIMORÉS.

Incentivo: SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA| MINAS GERAIS

Idealização e realização: UNIVERSO PRODUÇÃO

MINISTÉRIO DA CIDADANIA | GOVERNO FEDERAL

LOCAIS DE REALIZAÇÃO DO EVENTO 

Centro Cultural Sesiminas Yves Alves   

Largo das Fôrras 

Largo da Rodoviária

Escola Estadual Basílio da Gama 

O artista plástico Desali, que exibiu em Tiradentes o curta-metragem “Trabalho”, apresentou alguns de seus projetos de instalação e intervenção, relacionados ao trânsito com a imagem e a performance. Utilizando-se de objetos reconfigurados para outras funções e ocupando espaços como salas de museu, ele defende, com seus projetos, a reinserção de ideias desgastadas para dentro de novos contextos. “Existem lugares em que só a alegoria chega, e acho que isso faz parte do papel do artista”, afirmou.

Luciana Romagnolli chamou atenção para a utilização de dispositivos eletrônicos nas formas de expressão que extrapolam a comunicação e que podem mover, por exemplo, todo um processo eleitoral, como exemplificou no uso do WhatsApp recentemente. Ela acredita que a era eletrônica afeta os corpos. “As novas tecnologias reconfiguram as relações corporais no paradigma do tecnovívio (conceito do escritor argentino Jorge Dubatti), que é a mediação tecnológica através da supressão do convívio. No cinema, a ausência física dos atores no ato de se assistir aos filmes configura tecnovívio”.

Nos dois Encontros com os Filmes desta segunda-feira, questões de presença, consciência e afetação dos corpos e convivialidades foram também a tônica das conversas. Na mesa sobre “Tragam-me a Cabeça de Carmen M.”, o codiretor Felipe Bragança fez um breve resumo da vida de Carmen Miranda sob o ponto de vista de que ela tenha sido uma grande pensadora da cultura brasileira – princípio que ele e a codiretora Catarina Wallenstein utilizam no filme, na alegoria de uma atriz que vai interpretar “a pequena notável”. O procedimento foi captado pela crítica Ela Bittencourt, que comentou o filme. “Existe o imaginário em torno da Carmen Miranda na personagem central do filme, que tenta se apropriar de um certo espírito da cantora e atriz dentro de uma realidade que tenta oprimi-la”, disse.

Para Bragança, quando pensamos a cantora pela perspectiva trágica, “estamos tentando discutir o quanto devemos pensar o lugar do país, dentro das nossas bolhas”. “A Carmen que nos interessava no filme é aquela que sonhou um tipo de identidade pela construção cultural, pelo deboche, pastiche e colagem e que, com isso, influenciou o mundo inteiro”, afirmou ele. O título do filme foi pensado por esse sentido: o de entregar a “cabeça” de uma Carmen Miranda sem idealizações que se referisse “à atual tragédia que vivemos no Brasil”.

No caso de “Inferninho”, o crítico João Dumans elogiou o uso do melodrama como catalisador de emoções no filme de Guto Parente e Pedro Diógenes. “O movimento que o filme faz é de dar ao melodrama a possibilidade de aqueles personagens se expressarem. ‘Inferninho’ não faz isso só como referência, e sim leva a sério para a construção dos sentimentos”, afirmou.

Guto Parente contou que o filme partiu de um convite de parceria do Grupo Bagaceira de Teatro, cujos atores e atrizes aparecem no elenco do longa e colaboraram diretamente em sua feitura. O ator Rafael Martins, que faz o Coelho em “Inferninho” e é do grupo cearense, relembrou que a escolha pelo uso do artifício na construção dos dramas do filme foi pensado como elemento poético. “Esses artificialismos que vêm da fragilidade da imagem fala muito de nós mesmos e da nossa autoestima”, refletiu.